sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Mude

Mude,
Mas, comece devagar,
Comece na sua velocidade.

Sente-se diferente, em outra cadeira,
No outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, ande pelo outro lado da rua,
Depois, mude de caminho,
Ande por outras ruas, mais devagar,
Observando os lugares por onde passa.
Tome outros ônibus, se for o caso.
Mude por uns tempos o estilo das roupas,
Dê os seus sapatos velhos,
Procure andar descalço por uns dias.
Tire uma tarde livre
Para passear no parque ou na praia.
Saia sozinho para ouvir o canto dos pássaros.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Depois, de ponta-cabeça.
Assista a outros programas de TV,
Compre outros jornais,
Leia outros livros,
Viva outros romances.
Troque de carro.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Corrija a postura, faça ginástica, durma mais tarde, ou acorde mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
Numa outra língua.
Escolha novas comidas, temperos, cores,
Diferentes delícias.
Experimente a gostosura da pouca quantidade.

Tente o novo todo dia.
O novo lado,
O novo método,
O novo jeito,
O novo sabor,
O novo prazer,
O novo amor.
A nova vida.
.
Faça novos amigos, mantenha novas relações,
Almoce em outros lugares,
 vá a outros restaurantes,
 tome outros tipos de bebida,
 compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde – ou vice-versa.
Escolha outro mercado, outra marca de sabão,
Novos cremes.
Tome banho em horários variáveis.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
(Comece agora uma viagem para bem longe do aqui.)

Faça amor de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas.
Compre novos óculos,
Escreva outras poesias, jogue fora o despertador.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas, novos cabeleireiros,
Outros teatros.
Visite novos museus.

Mude.
Você conhecerá coisas melhores
E coisas piores do que as já conhecidas,
Mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
O movimento, o dinamismo,
A energia.
Dessa forma, apenas dessa forma – você viverá.
Só o que está morto não muda!

A salvação é pelo risco sem o qual a vida não valeria a pena.

(Trecho do livro Solidão a Mil, de Edson Marques)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Poesia de Victor Hugo


Desejo, primeiro, que você ame.
E que, amando, também seja amado.
E que, se não for, seja breve em esquecer.
E que, esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim.
Mas, se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo, também, que tenha amigos e
Que, mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis.
E que, pelo menos num deles,
Você possa confiar sem duvidar.

E, porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que, entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado
Seguro.

Desejo, depois, que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que, nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter
Você de pé.

Desejo, ainda, que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque
Isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente.
E que, fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais.
E que, sendo maduro, não insista em rejuvenescer.
E que, sendo velho, não se dedique ao
Desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a
Sua dor, e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo, por sinal, que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas, que nesse dia, descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso
Constante é insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo, ainda, que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo, também, que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que, pelo menos uma vez por ano,
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o
Dono de quem.

Desejo, também, que nenhum de seus
Afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que, se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo, por fim, que você, sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que, sendo mulher,
Tenha um bom homem.
E que se amem hoje, amanhã e nos dias
Seguintes.
E, quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E, se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

(Victor Hugo)



terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Estamos com fome de amor






    "Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente, digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

   Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

   Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

   Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

   Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

   Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!".

   Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

   Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens - mais que verdadeiras- é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

   Alô, gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.
   Mais - estou muito brega!-, aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

   Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

   Antes idiota que infeliz!"

(Arnaldo Jabor)